Se fôssemos compelidos a identificar a força propulsora da nossa existência, os motivos pelos quais vale a pena continuar vivendo, a essência de toda vida, o que responderíamos? Família, religião, dinheiro? Com certeza eu atribuiria a razão da minha vida à perspectiva. O que poderia ser mais forte e ao mesmo tempo mais agonizante do que a perspectiva? É ela a base de tudo. Das alegrias, das tristezas, das ilusões, das realizações, do ânimo e da depressão, da vida e da morte. O que pode ser mais triste do que uma vida sem perspectivas? Acordar e não ter o que fazer? Para onde ir? Pelo que lutar? Com que ou quem se preocupar? Sem a perspectiva a vida se tornaria um perene ato de prodigalidade. A perspectiva nos faz acreditar em projetos impraticáveis, em planos mirabolantes, em amores impossíveis, que quando alcançados, porém, nos fazem ver que a perspectiva de se obter o sucesso esperado é a força que nos impulsiona para frente. Contudo, essa mesma perspectiva é responsável pelos nossos insucessos. Ela pode cegar mesmo diante das coisas mais visíveis, trazendo a tristeza e o sentimento de derrota. O antagonismo de idéias sobre o conceito da perspectiva é tão absurdo quanto exato. Para quem perdeu a própria liberdade a perspectiva de ir e vir é a razão de sua vida, diferente de quem é livre e prospecta voos maiores. Por analogia, a queda pode ter um duro impacto, mas a sensação de se ter um caminho a percorrer e um lugar a chegar é prolífica e salutar. Sendo assim, é a prerrogativa dos argumentos individuais sobre a perspectiva que a define como imaculada ou mefistofélica. Determine-a como quiser: anseio, projeto, vontade, plano, predição, providência, projeção. De fato, a perspectiva é muito daquilo que realmente pensamos ser. É um preâmbulo inconsciente dos desafios da vida, é a primícia de grandes feitos e conquistas, é também a constatação de que podemos não ser capazes.